Ode muito pouco triunfal sobre a tristeza da casa e da pátria

«Só o multiforme talento de José Jorge Letria,

poeta de raiz superdotado e imaginativo, poderia

dar-nos este livro mavioso e dolorido,

verdadeiro prodígio versificatório.

É uma oferta de Natal e um breviário de amor.

Admirável contista, poeta de sofrimento

e da euforia, carinhoso amigo das crianças,

Letria excede-se nesta obra magistral.

Todo o aplauso será pouco

para celebrar esta ode triste, não triunfal.»

 

Urbano Tavares Rodrigues

Setembro 2012

"Se Eu Fosse um Livro" premiado em Barcelona

O livro "Se Eu Fosse um Livro", de José Jorge Letria e André Letria, editado pela Pato Lógico, foi distinguido em Barcelona com o Prémio Junceda Ibéria, da Associação Profissional de Ilustradores da Catalunha, que já havia atribuído, no ano anterior, uma menção honrosa ao livro "Domingo Vamos à Luz", dos mesmos autores.
O Prémio Junceda distingue obras nacionais, sendo o Prémio Junceda Ibéria destinado a obras internacionais. O prémio entregue em cerimónia pública no dia 14 de Junho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mal por Mal, Antes Pombal

Poucas figuras da História de Portugal suscitaram e suscitam tanta paixão e controvérsia. Para alguns foi uma déspota cruel, para outros um governante iluminado, para quase todos o político determinado e pragmático que reconstruiu Lisboa após o cataclismo de 1 de Novembro de 1755, transformando-a na mais moderna capital da Europa na época, com uma notável visão do futuro.

Mas quem foi ao certo Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal? Agustina Bessa-Luís escolheu a palavra "enigma" para classificar o mistério que ainda hoje envolve aspectos fulcrais da sua vida e o modo como construiu a sua carreira e deu corpo ao seu projecto de poder, sempre com o beneplácito real.

Este livro dá voz a Pombal e a uma boa parte daqueles que o amaram e odiaram. A figura de Pombal não consente nem recomenda neutralidade ou indiferença, por ser excessiva, imensa, omnipresente. Este não é um livro de memórias ficcionadas, com o suporte factual que a História comporta. É apenas uma memória, uma memória polifónica e contraditória que não se propõe decifrar enigmas nem desvendar mistérios. Tudo isso viveu e morreu com Pombal, que, neste livro, não é julgado nem tenta julgar-nos. Os únicos julgamentos da História só o tempo está apto a fazê-los, com Pombal ou com qualquer outro, já que o juízo do presente não dispõe de serenidade ou distância bastantes para conseguir ser justo. Pombal foi o que foi, no seu tempo, que não é nem podia ser o nosso, o actual. Pombal foi quem foi, e o capítulo que por direito lhe cabe na História de Portugal continua desafiadoramente aberto ao debate, à polémica e ao confronto de ideias. É assim que as grandes figuras ascendem ao patamar da posterioridade. As outras não.

                                                                                                          José Jorge Letria

 

 

 

 

 

 

Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,

logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca !”.

Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,

a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,

e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos

de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.

Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.

Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,

que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.
 

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,

um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,

um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais

do que isso. Era a personagem que faltava

a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo

se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima

da vida do que da imaginação de quem efabula.

Ouviu-se o tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali

para começar logo no instante seguinte sob a forma

de revolta que não encontra nas bocas

as palavras certas para conquistar a rua.

Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.

Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,

o mártir da Praça Syntagma pediu apenas

para não se renderem, para não se limitarem

a ser unidades estatísticas na humilhação de uma pátria.
 
Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,

mas sim que evitassem a sua trágica repetição.

E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,

sabendo-o já a salvo da humilhação de deambular
pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até os deuses, na sua olímpica distância,

se perfilaram de assombro ante a coragem deste gesto.

Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é costume, pela ignomínia
de quem se vende para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.

A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,

para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma. Estava livre.
 
Tornara-se herói de tragédia enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,

deusa tantas vezes idolatrada e venerada.

Assim se despedia um homem de bem,

com a coragem moral de quem o destino não vence.
 

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,

Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,

uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu

e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,

de pé firme, porque nada tem a força de um homem

quando chega a hora de mostrar que tem razão”.

Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,

súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,

tão terreno e finito como qualquer homem com fome,

ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.


                                                                                                       José Jorge Letria
                                                                                                      6 de Abril de 2012


POEMA CONTRA A RESIGNAÇÃO


A tinta com que se escreve a dor de um povo
não existe na paleta dos dias perfeitos.

É uma tinta que casa o azul do mar

com a palidez de cal das tardes sem esperança,

o verde, o ocre e a cinza com o metal do grito

que a garganta magoadamente abafa.

E quando os filhos perguntam “amanhã como será ?”,

que ninguém retome o fio da história

na enseada de assombros em que tantos sonhos naufragaram.

Condenaram-nos a responder pelo número que somos,

tornados estatística de uma raiva adormecida,

cifra negra que nos resume e derrota. Até quando ?

Então e as viagens heróicas, as naus afundadas,

as sinuosas rotas de luz, os astrolábios do espanto

e tudo o mais que se perdeu no esquecimento dos mapas ?

São perigosos os poetas na hora do incêndio da memória

com o fogo das palavras que não se rendem nem se vendem.

Agora somos a conta que ficou por pagar, colectiva e brutal,

a miséria sussurrada na aflição das noites,

a dormência dos dedos quando chega a hora

de escrever coragem na página de todos os temores.

Mas há uma pátria que se revolta dentro de nós

quando a música interrompe o sono das casas

e proclama que tudo é legítimo menos a resignação.


José Jorge Letria

25 de Outubro de 2011
 

PORTUGAL, PORQUE SIM

Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,

alpendre aberto ao feitiço das estrelas.

Podia aninhar-me no casulo do teu abraço

e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.

Podia recordar os nomes dos rios e das serras

e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.

Podia perguntar pelos teus filhos

esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.

Podia querer interpretar a tua melancolia

como um sinal de saudade da grandeza perdida.

Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,

os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,

como os heróis, em pátria de carpideiras

e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.

Podia entrar nas tuas casinhas baixas,

as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.

Podia afagar-te as barbas brancas

que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.

Podia desenterrar os teus mortos

só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.

Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome

como se falassem de negócios reles numa banca de feira,

Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo

os largos das aldeias desertas e queres saber

o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,

daqueles que tomaram outros rumos

com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.

Podia deitar-me ao teu colo

como se me deitasse na cama de urze

à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.

Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas

que foste obrigado a consentir e a calar.

Podia contar aos meus netos os feitos

do Gama, de Magalhães e de Cabral

e desenhar um mapa de glórias navegantes

só para eles saberem que um dia

usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.

Podia pedir-te e dar-te contas

de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.

Podia fazer tudo isso e muito mais,

mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos

a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas

e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,

serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende

quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.

 

José Jorge Letria


COLECTIVOS DE ANIMAIS E OUTROS MAIS

"Colectivos de Animais e Outros Mais" (Ed. Texto) é uma obra de José Jorge Letria para os mais novos, com ilustrações de Afonso Cruz. Neste livro de grafismo cuidado e apelativo, José Jorge Letria, um dos mais produtivos, premiados e criativos autores portugueses, designadamente da área infanto-juvenil, explica aos mais novos em verso, com humor e sentido pedagógico a que animais corresponde as palavras "vara", "cardume", "alcateia", "alfabeto", "esquadrilha","cardume" e "constelação", entre muitos outros, sempre com ilustrações inspiradas e motivadoras de Afonso Cruz, escritor e ilustrador premiado. Um livro para os mais novos que os adultos também vão gostar de ter e ler, já que os ajuda a explicar palavras e conceitos nem sempre de explicação fácil.

Quem Assim Falou-Grandes Frases de Todos os Tempos

"Quem Assim Falou-Grandes Frases de Todos os Tempos" (Ed. Oficina do Livro) é o mais recente livro de José Jorge Letria, que reúne cerca de uma centena de frases de filósofos, políticos, artistas, chefes militares desde a Antiguidade até aos nossos dias. O livro inclui frases portuguesas e de muitas outras procedências, levando em conta as grandes épocas e os grandes momentos da história da humanidade.
A historiadora Irene Pimentel escreve no prefácio ao livro: "Cada frase está contextualizada, através de uma curta biografia do seu autor, o que é muito útil e instrutivo". Este é um livro de encontro permanente com a memória histórica, cultural, política e social que permite encontrar frases e pensamentos de figuras como Aristóteles, Júlio César, Galileu, Napoleão Bonaparte, Winston Churchill, John Fitzgerald Kennedy, Humberto Delgado, Mário Soares e Barack Obama, entre muitos outros.
Tem sido salientada a utilidade deste livro de referência para professores e estudantes de História, para jornalistas, investigadores e para o público em geral.

 - José Jorge Letria
O livro "Avô, Conta Outra Vez" de autoria de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria, editado no Brasil pela editora Peirópolis, ganhou o Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - O Melhor para Criança 2011, na Categoria de Literatura em Língua Portuguesa.

www.fnlij.org.br/principal.asp

www.fnlij.org.br/imagens/arquivos/premio%20fnlij/Premio%20FNLIJ%202011%20-%20Producao%202010.pdf


                                                                                                                                              
Maio 2011

PORTUGAL, PORQUE SIM

Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,

alpendre aberto ao feitiço das estrelas.


Podia aninhar-me no casulo do teu abraço

e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.


Podia recordar os nomes dos rios e das serras

e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.


Podia perguntar pelos teus filhos

esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.


Podia querer interpretar a tua melancolia

como um sinal de saudade da grandeza perdida.


Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,

os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,

como os heróis, em pátria de carpideiras

e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.


Podia entrar nas tuas casinhas baixas,

as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.


Podia afagar-te as barbas brancas

que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.


Podia desenterrar os teus mortos

só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.


Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome

como se falassem de negócios reles numa banca de feira,


Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo

os largos das aldeias desertas e queres saber

o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,

daqueles que tomaram outros rumos

com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.


Podia deitar-me ao teu colo

como se me deitasse na cama de urze

à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.


Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas

que foste obrigado a consentir e a calar.


Podia contar aos meus netos os feitos

do Gama, de Magalhães e de Cabral

e desenhar um mapa de glórias navegantes

só para eles saberem que um dia

usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.


Podia pedir-te e dar-te contas

de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.


Podia fazer tudo isso e muito mais,

mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos

a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas

e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,

serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende

quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.

                                                                 
José Jorge Letria

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